Vocabulário de Foucault_EDGARDO CASTRO

September 14, 2018 | Author: Jéssica Nogueira | Category: Michel Foucault, Thought, Monarchy, State (Polity), Hospital
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Vocabulârio de

FOUCAULT Um percurso pelos seus temas, conceitos e autores 8^.la,l"^t

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Tradução

lngrid Müller Xavier Revisão técnica

Walter Omar Kohan Alfredo Veiga-Neto

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Vocabu lário de

FOUCAULT Um percurso pelos seus temas, conceitos e autores

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Tradução

lngrid Müller Xavier Revisão técnica

Walter Omar Kohan Alfredo Veiga-Neto

autêntica

Copyright @ 2004 Edgardo Castro

- -..O

ORIG NAL

Ei Vocabulario de Michel TiÀD

Foucault

Un recorrido alfabético

por

sus temas, conceptos

u(Áo

lngrid Müller Xavier tEV 5Ào TÉCNICA

Alfredo Veiga-Neto Walter Omar Kohan CAPA E SOBRÊCAPA

Diogo Droschi (Sobre imagem de Raymond DepardonlMagnum Photos) EDIÍORAÇÃO ELETRÔNICA

Tales Leon de Marco

Waldênia Alvarenqa Santos Ataíde REVJSÃO

Ana Carolina Lins Brandão Cecília Martins Vera Lúcia Simoni De Castro CONFECÇÃO DOS íNDICES

Arlindo Picoli Walter Omar Kohan EDIToRA RESPoNSÁVEL

Rejane Dias Revisado conforme o Novo Acordo OrtográÍico.

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida,

seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorizaÇão prévia da Editora. AUTÊNTICA EDITORA Rua Aimorés, 981, 8" andar. Funcionários 30140-07L Eelo Horizonre. MG Tel: (ss 3 1 ) 3222 68 19 Trrrvexo,qs: 0800 283 1 3 22

wvwv.autenticaeditora.com. br

Dados lnternacionais de Catalogação na Publicação (ClP) (Câmara Brasileira do Livro)

t-

Castro, Edgardo Vocabulário de Foucault Um percurso pelos seus ternas, conceitos e autores/ Edgardo Castro; traduEão lngrid Müller Xavier; revisão técnica AlÍredo Veiga-Neto e Walter Omar Kohan. Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2009.

TÍtulo or ginal: El vocabulario de Mrchel Foucau alfabético por sus temas, conceptos y autores

t : un recorrido

lsBN 978-85-7526-402 7 L

1 . Filosofia - Dicionários 2. Foucault, Mlchel, 1926-'1 984 - Dicionários Veiqa-Neto, AlÍredo. ll. Kohan, Walter Omar. lll. Título.

09-047 1 6

índice para catálogo sistemático 1. Filosofia : Dicionários 103

y autores

SU

MARIO

VrRerrrs PnoLoco n rotçÃo

BRASTLETRA

11

Pnrrncto

13

lnrnoouçÃo

15

lrusrnuÇôrs PARA

VocRsuLRnto

o

uso

or FoucnuLr

1i 21

As osnas E AS PAGINAS

431

ÍNorcr

461

DE TERMOS ESTRANGETROS

Íruorcr oNOMASTIco

ioB

Íruorcr DE oBRAS

415

VERBETES

A

Barbárie (Barbarie)

A priori historico (A priori historique)

2l

Absolutismo (Ab s oluti sm e) Abstinência (Ab st in e n ce) Acontecimento (Év énement)

2t

.4.mulatio

28 28

23 24

Afeminado (Üfféminé) Agostinho, Santo

28

Alcibíades

29

Alienação (Ali é n ati o n) Althusser, Louis Anachóresis

29 30 30 30

Analítica da finitude (Analytique debfinitude) Analogia (Analogie)

31

Amicitia

Animalidade (Animalité) Anomaiia (Anomalie) Anormal (Anormal) Antiguidade (Antíquité) Antipsiquiatria (Ant ip sy chi atr

31

31

32

J4 34

50 50

Barbln, Herculine Barroco (Baroque)

51

5I

Barthes, Roland Basaglia, Franco Bataille, Georges Baudeiaire, Charles Beccaria, Cessare B

ehaviorismo

(B éh av

5l

i

o

r i sme)

Benjamin, Walter Bentham, leremy Bergson, Henri, Bergsonismo (Bergsonisme) Bichat, François Xavier Binswanger, Ludwig Bio-história (B i o -hi st o ire) Biologia (Biologie)

Biopoder (Bio-pouvoir) Biopolítica (Bi op olitiqu e) Bissexualidade (Bisexualité) Blanchot, Maurice Bloch, Marc Bopp, Franz Borges, Jorge Luis Botero, Giovanni

e)

35

mit i sm e ) Antropologia (AnthroP ologie)

35 36

Aphrodísia

37

Arendt, Hannah Ariês, Philippe

38 39 39

Boulainvilliers, Henry de

39

Brown, Peter

40

Burguesia

Antissemitism o (Anti



Aristófanes Aristóteles

Arqueologia (Ar ch é olo gi e) Arquitetura (Ar chit ectur e)

Arquivo (Archive) Ars erotica

Artaud, Antonin

Artemidoro Ascese (Áscàse)

Asilo (Aslle) Atualidade (Actu alit é) AuJkliirung Ausência (Absence)

Aotor (Auteur)

i

(B

o

urge oi si e)

54 54 54 55

55 57 59 60

60 61

62 62 62 62 63 63 63

64

42

43c

44 44 4! 45 46 46 46 46 47

B Bachelard, Gaston Bacon, Francis

Boulez, Pierre Braudel, Fernand

52 52 52 53 53 53

49 49

Cabanis, Pierre fean George Cadáver (Cadavre)

Canguilhem, Georges Capitalismo(Capitalisme) Carne (Chair)

66 66 66 67 68

Cassiano, loão Castel, Robert

7l

Castigo (Chôtiment, punition) Cervantes Saavedra, Miguel de Chemnitz, Bogislaus Philipp von

71

71

Choms§, Noam Avram

72 73 73

Cícero Ciências humanas (Sciences humaines)

74

/3

7

Clausewitz, Carl von Clausura (Renfermement) Clemente de Alexandria

Clinica (Clinique) Cogito

Comentário (Commentaire) Comunismo (Communisme) Condillac, Étienne Bonnot Confi ssão (Aveu,

co

nfession)

Contrato (Contrat) Controle (Contrôle) Convenientia Conversão (Epistrophé, conversion) Corpo (Corys)

Cristianismo (Chr i st i ani s m e) Cuidado de si (Epiméleia, souci) Cuvier, Georges

74 Epiméleia 74 Episteme (Épistémà) 74 Episteme clássica (Épistémà classique) 75 Episteme moderna 80 Epistemerenascentista 81 Epistrophé 82 Epiteto 82 Epithymía 82 Época clássica (Époque classique) 84 Eros 85 Erotica(Erotique) 86 Escola(École) 86 Escola dos anais (Ecole des anales) 87 Estética da existência (Esthétique de 9l lbxistence) 92 Estratégia(Stratégie) 96 Estruturalismo (Structuralisme) Ethos

D Darwin, Charles

97

Degeneração ( D ége né res Deleuze, Gilles

ce n c e)

Democracia (D ém o cr at i e) Derrida, Jacques Descartes, René

Descontinuida de (D i s co nt inui t é) Desejo (Désir) Despsiquiatriz açáo (D ép sy chi at r i s at i o n) Diagnosticar (D iagno stiquer)

Dialética (D i ale ct i qu e) Dietética (Diététique) Disciplina (D i s cipline) Discurso (Discours) Dispositivo (D i sp o s itifl Dispositivo de aliança (Dispositif dhlliance) Dispositivo de sexualidade (Dispositif de sexualité)

Divinatio Documento (Document) Dogmatismo (Dogmatisme) Dominação (Domination) Dom Quixote Doutrina (Doctrine) Dumézil, Georges Durkheim, Émile

97 98 101

Experiência (Exp érience)

103

Fâbrla (Fable)

104 106 107

Família (Famille) Fascismo (Fascisme) Fausto (Faasf)

108

Febvre, lucien

109

Fenomenologia (Phénoménologie) Feudalismo (Féodalisme, Féodalité, Féodal) Ficçáo (Fiction) Filodemo de Gádara Filosofia (Philosophie) Flaubert, Gustave Formaçáo discursiva (Formation discursive) Formalização (Formalisation) Freud, Sigmund

110 117 123

t25

125 125 125

(É co n omi

tlue)

Educação (Éducation)

Enciclopédia

(En cy cl op

Enkrateia

Enunciado (Enoncé) Epicuro

é

die)

t44 144 145

t45 146 147

t47 147

149

r49 150 151

152

t54 155 157 160 160 161

125

126 G 127 Galeno 128 Genealogia(Généalogie) 129 Gênio (Génie) 129 Gnosticismo (Gnosis,Gnosticisme)

131 133 134 135

r64 164 166 167 167 167 170

17t t72 t72 176 177 180 181

Goethe, Wolfgang Governo, governar, governamentalidade

Édipo

B

Exomologêsis

139 140

r02 r02 F

E Econômica

Étíca (Éthique) Exame (Examen) Existencialism o (Exi st e nt i ali s m e)

138

184 184 187

t87 188

(Gouvernement, Gouverneri Gouvernamentalité)

Gterra (Guerre) Gulag(Goulag)

135 H 136 Habermas, fürgen 138 Hadot, Pierre

188 193

t96 197 198

Hegel, Georg

Wilhelm Friedrich

Hegelianismo (Hé géli ani sme) Heidegger, Martin Hermafroditism o (Herm aphr o di sm e) Hermenêutica (Her m en éutique) História (Histoire) Historicismo (Historicisme)

Hitler, Adolf Hobbes, Thomas

Hôlderlin, Johann Christian Friedrich Homem (Homme) Homossexualid ade ( Ho m o s e xu alit é ) Humanismo (Humanisme) Husserl, Edmund Hypomnémata

1e8

M

lii

ilxlilffi',§::,tr

;i.; ::: :Y: i:: iH ;;, ;iZ

i)i

221

222

Hlppolite, |ean

I

Marx, Karl Marxjsmo(Marxisme) Masturbação (Masturbation) Materialismo (Matérialisme) Medicalização (Médicalisation)

Modernidade (Modernité) Monstro (Monstre\ Montaigne, Michel de

223

i o n) Inconsciente (ln c o n s ci ent) Individualizaçã o (In div i du ali s ati o n) Intelectual (lnt ell e ct uel) Interioridade (Int é r i o r it é) Interpretação (Int e r pr ét ati on) Investigação (Enquête, Inquisitio)

22s

Imaginaçáo (Im agin at

I |arry, Alfred )usti, |ohann Heinrich Gottlob von

223 224

L

Liberalismo (Lib

ér ali sm e)

Liberdade (Liberté)

Libertinagem (Lib

er

tinage)

Libido

Limite (Limite) Linguagem (Langage) Linguística (Lingui st i que)

Literatura (Littérature) Lombroso, Cesare Louqra (Folie) Lrta (Lutte)

294

298 298 299 301 303 303

304 Nazismo (Nazisme) 305 Nietzsche,Friedrich Norma (Norme, Normalisation, Normalité) 309 (Nos

o

-p olitique)

311

o (Obédience)

227 227 228

P

229 230 232

236 236 237 237 23g

Lacan, Jacques Lamarck, |ean-BaPtiste Lei (Loi) Lepra (Làpre)

292

312 Obediência Ontologia do presente, Ontologia histórica (Ontologie du présent, Ontologie historique) 312

K KaÍka, Franz Kant, Immanuel Klossowski, Pierre

29t

N

Nosopolítica

Iatriké Ideologia (Idéologie) Ilegalidade (lllégalkme)

291

241

Panóptico (Panoptique, Panoptisme)

3t4

Parresía

316

Pascal, Blaise Pedagogia (Pédagogie)

318

Pinel, Philippe Pitagorismo (Pythagorisme)

320

Platão Platonismo (Platonisme) Plutarco Poder (Pouvoir) Poder pastoral (Pouvoir pastoral)

319 320 321 322

1).) 323 554

Polícia, Ciência dapolicia (Police, Polizeiwissenschaft) População (PoPulation)

334

Positividade(Positivité)

JJO

241 Práttca(Pratique) 242 Prisáo (Prison) 242 Psicagogia (Psychagogie) 243 Psicanálise (PsychanalYse) 245 Psicologia(Psychologie) 249 Psiquiatria (Psychiatrie)

336

339 344 344 347 349

250

2so R 751

Raca (Race)

373

255 256 258 258 288

Racionalidade(Rationalité)

373

Racismo (Racisme) Razão de estado (Raison détat)

376

Reich,

Wilhelm

Religiáo(Religion)

i/ó 381 381

9

Repressão (Répression)

384

Resistência (Résistance) Revolução (Rév olution)

387 387

Roussel, Raymond

392

S Saber (Savolr) Sade,

393

Donatien-Alphonse-François

Marques de Saúde, salvaçáo (Salut, Santé)

Sexualidade Shakespeare,

(S

exu

alit é)

William

Soberania (S o uv erain et é ) Subjetivação (Subj e ctiv ation) Subjetividade (Subj ectivité) Sujeito (Suleú)

395 396 398 403 403 407 409 409

T Tâtica(Tactique)

411 Técnica, tecnologia (Technique,Technologie) 412

(Téléologie) (Territoire) Therapeutiké Totalidade (Totalrtô Tradição (Tradition) Tianscendental (Transcendental) Transgressão (Transgression) Teleologia

Território

414 474 415 415

416 417 417

U Ubuesco (Ubuesque) Ussel, los van Utopra (Utopie)

419 419 419

V Verdade, jogo de verdade, vontade de verdade (Vérité; leu de vérité, Volonté de vérité)

421

w Weber, Max

426

x Xenofonte

428

Z Zen

10

429

PRoLoGo

n rolçÃo

BRASTLETRA

Michel Foucault é um dos pensadores franceses contemporâneos mais potentes, não apenas pela sua produção teórica, mas, sobretudo, pelo seu modo de conceber e afirmar uma posição para o intelectual. Nesse sentido, Foucault faz do pensamento uma práticaativa de problematizar as questões do seu tempo. Produziu teoria, rnuita teoria; mas também ajudou a pensar que há formas diversas de se relacionar com a teoria. Na esteira de Nietzsche, chamou a teoria de'taixa de ferramentas"; com isso, Foucault sugeria que nenhuma teoria tem valor em si própria, para além dos usos que lhe são orriorgudor. Trata-se, então, de uma pragmática - não utilitária - do pensamento: dizme o que fazes com o pensamento e te direi o valor desses pensares"' poucos escritos sobre Foucault merecem tanto o nome de "caixa de ferramentas" como o livro que estamos apresentando em versão em língua portuguesa: Vocabulário de Foucault, de Edgardo Castro. Produto de um rigoroso e exaustivo estudo, não hesitamos em afirmar que se trata de um instrumento de trabalho precioso, fundamental, utilíssimo para os interessados em pensar com e a partir do filósofo. Com efeito, o leitor tem em máos um sofisticado mapa de suas principais temáticas e questões. Cada verbete não apenas "faz referência a onde, nos escritos de Foucault, aparece cada termo, mas quer, ademais, oferecer uma indicação (às vezes sucinta, às vezes extensa) de seus usos e contextos'i Algo assim como o mais completo "motor de busca" para visitar os caminhos de seu pensamento.

Na Introdução do autor, o leitor encontrará subsídios muito claros para adentrar na presente versão em português. Há que se ter sempre à mão as "Instruções para o uso" (p. 17-19). Todos os critérios da edição em língua espanhola foram respeitados na presente edição, com leves intervenções no texto para atualizar as referências bibliográficas aos cursos publicados posteriormente à data da edição original do Iivro na Argentina, em 2004. Dentro dos verbetes, mantivemos no idioma original o título das obras em francês por dois motivos: são facilmente compreensíveis para o leitor de língua portuguesa e nem sempre os títulos em francês coincidem com os das traduções. As referências remetem às edições francesas dos textos de Foucault. Embora não seja o ideal, preferimos essa alternativa, dada a existência de diversas traduções ao

II

Português para alguns textos e a inexistência de traduções para outros. Como também em francês não existe uma única edição francesa dos textos de Foucault e a numeração das páginas não é a mesma em todas as reedições, ao final d,o Vocabulárlo a seção 'As obras e as páginas" relaciona as páginas que correspondem aos capítulos ou às seções das ediçoes em francês utilizadas dos textos de Foucault. Para os Dits et écrits,acrescentamos o título do texto (verbete, entrevista, intervenção) e, para os cursos no Collêge de France, a data da aula. Todos os títulos dessa seção estão em francês e em português. As traduções dos textos em francês citados nos verbetes foram feitas cotejando a versão em espanhol com o original francês. Na presente edição acrescentamos um índice onomástico e

outro de obras. Os termos em grego foram transliterados segundo as normas de Henrique

Murachco. Língua Grega.Yol.I. São Paulo: Discurso Editorial; Vozes, 2001, p.40-42. De resto, o texto segue fielmente o original.

Ao leitor, boas viagensl Ingrid Müller Xavier, Walter Omar Kohan, Alfredo Veiga-Neto

L2

PREFAC!O

Guardadas as diferenças, poderíamos começar como Foucault no prefácio a Les mots et les choses e dizer que este livro nasceu de um texto de Borges. Foucault refere-se àquela enciclopédia chinesa onde aparece uma inquietante classificação dos animais: "(a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) domesticados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães em liberdade, (h) incluídos na presente classificação, (i) que se agitam como loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo, (l) et cetera, (m) que acabam de quebrar a bilha, (n) que de longe parecem moscas" (Jorge Luis Borges, "El idioma analítico de lohn Wilkins'l in Obras

completas 1923-1972, Buenos Aires, Emecé,1974, p. 708). Sempre, segundo Foucault, essa classificação provoca riso. Não pelo que nos pode sugerir o conteúdo de cada um de seus itens, mas pelo fato de que eles tenham sido ordenados alfabeticamente. O que nos faz rir é que no não lugar da linguagem se tenha podldo justapor, como em um espaço comum, o que efetivamente carece de lugar comum. Provoca riso e inquietude a heterotopia que domina essa classificação (cf. MC, 9). Supondo que os "inumeráveis'l os "fabulosos" ou os"et cetera" existam, na classificação de Borges, trata-se de ordenar "seres"; no Vocabulário de Foucault - Um percurso por seus temas, conceitos e autores,de ordenar'tonceitos'l Mas, ainda que pareça que os "conceitos" estejam mais próximos das palavras e facilitem a operação, apesar disso, o perigo não e menor. De fato, esle Vocabulário pode produzir o mesmo efeito que a classificação dos animais da enciclopédia chinesa; Porque, claramente, tal como ela, poderia ser apenas o esforço para encontrar um lugar comum para o que parece não tê-lo. O

próprio Foucault, com certa frequência, assinalou o caráter fragmentário

e

hipotético

de seu trabalho, sua recusa em elaborar teorias acabadas, seu horror à totalidade. Seria, então, somente a pretensão de querer pôr ordem e limites a seu pensamento, recorrendo

simplicidade e finitude alfabéticas. Mais ainda, tentando ser simultaneamente breve e extenso, analítico, mas exaustivo, encerrando o universo do pensamento foucaultiano na enclausurada gramática de um dicionário, este Vocabulário náo só provocaria o mesmo à

efeito que essa estranha classificação de animais, mas correria o risco de converter-se ele mesmo em uma enciclopédia chinesa. Porque, "notoriamente não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural" (J.-L. Borges, op. cit., p. 708). E nada

t3

nos assegura que, com o afã de ordenar, não venhamos a cair nessas autoimplicações (classificar os conteúdos mesmos da classificação; como Borges, "(h) incluídos na presente classificação") que só os labirintos da linguagem permitem construir. E, finalmente, no e, no melhor, também inquietude.

pior dos casos, provocar somente riso,

- Mas e se esse espaço comum existisse?

- Ah, bom, então, apresentar este Vocabulário se reduziria a dizer, de novo como Foucault: "Eu não escrevo para um público, escrevo para usuários, não para leitores" (D82, s24).

Edgardo Castro

l4

TNTR0DUÇÃ0

Nossa ideia inicial foi elaborar um índice completo da totalidade dos textos publicados de Foucault: os livros editados em vida, a recopilaçâo intitulada Dits et écrits e os

cursos no Collêge de France que apareceram ate o momento. A intenção era dispor de um instrumento de trabalho em estado "bruto I sem nenhum tipo de seleção ou filtro dos dados. Dada a sua extensão e à espera de encontrar o modo mais adequado para

publicar este material, com base nele elaboramos este vocabulário.

O presente trabalho difere da nossa ideia original por vários motivos. Por um lado, não se trata de um índice, mas, mais exatamente, de um vocabulário. Não só faz referência a onde, nos escritos de Foucault, aparece cada termo, mas quer, ademais, oferecer uma indicação (às vezes sucinta, às vezes extensa) de seus usos e contextos. Por outro lado, está constituído por uma seleção arbitrária de termos. os únicos criterios que nos guiaram, no momento de escolher o que incluir

e o que importância que reconhecíamos em alguns termos valendo-nos da nossa leitura da obra de Foucault (o que poderíamos denominar sua "representatiüdade"), nosso interesse pessoal ou, simplesmente, uma suposta utilidade para o leitor. Por exemplo, no caso das expressóes e dos termos gregos, frequentes nos últimos escritos, quisemos incluir o maior número possível. Alguns autores foram incluídos não pela frequência com que são citados; mas, por serem autores menos conhecidos para o público em geral e, por isso, pareceu-nos útil situá-los na obra de Foucault e também na história. Por exemplo, os autores estudados a propósito da análise da "Razão de Estado I

deixar de fora, foram:

a

As limitaçÕes que, necessariamente, surgem dessas opçoes só poderiam ser sanadas com um trabalho de equipe, no qual os critérios de seleção se multipliquem e sejam discutidos. Além do mais, ate que sejam publicados todos os cursos de Foucault no Collêge de France, torna-se impossível colocar um ponto final na tarefa de elaborar um vocabulário foucaultiano. Por outro lado, este deveria estar acompanhado de uma bibliografia secundária que pudesse ser sugerida a propósito de cada termo. Outra tarefa arealizar seria estabelecer "a biblioteca de Foucault'l a lista de obras citadas, segundo a cronologia e a frequência. Por todas essas razões, este trabalho deveria ser tomado como o ponto de partida para uma obra coletiva, necessariamente mais abrangente e

mais rica. O convite está feito. Não

trata, pois, de uma exposição do pensamento de Foucault, mas de um instrumento de trabalho. Na redação dos verbetes, tentamos abster-nos o mais possível de nossa se

I5

interpretação pessoal. A propósito de cada termo, só quisemos mostrar como e onde ele aparece. Sobretudo, pretendemos exibir seus sentidos mais releyantes. Por isso, porque nào se

trata de uma exposição sistemática, mas apenas de uma apresentação do conteúdo, mul-

tiplicamos as referências

e

mantivemos algumas repetiçoes. Muitos termos talvez pudessem

ter sido reunidos dentro de outro. Mas nem sempre os agrupamos. Algumas vezes o fizemos, a hm de náo nos estender demasiado; outras, os mantivemos separados para facilitar a

consulta por termos, e não por temas. Também para controlar a extensão da exposição

eritar demasiadas duplicaçôes,

às vezes

e

remetemos de um verbete para outro.

Em certo sentido, quisemos conservar a dispersão que caracteriza o trabalho de Foucault. Por isso, na medida em que os textos o permitiram, em alguns verbetes se encontrará uma exposição mais ordenada; em outros, já não (sobretudo quando o nraterial corresponde à recompilação editada como Dlús et écrits; aqui a dispersão está quase imposta). Por outro lado, alem de apresentar os contextos mais relevantes do termo abordado, às vezes citamos diretamente algumas expressôes de Foucault, sobretudo quando nos pareceram particuiarmente relevantes, esclarecedoras, simplesmente provocativas ou também apenas divertidas. Mantivemos no idioma original o título das obras em francês por dois motivos: são facilmente compreensíveis para o leitor e nem sempre os títulos em francês coincidem com o das traduçóes. Por exemplo, os textos que integram a compilação Dits et écrits estão parciahnente publicados em português com outra ordenação e formato. Na elaboração deste Vocabulário, tivemos presente o interessante trabalho de Judith Revel, le vocabulaire de Foucqult (Paris, 2002) [em portuguê s, Michel Foucault: conceitos essenciais. São Carlos: Claraluz,2005]. Nosso objetivo, em todo caso, foi diferente.

Várias pessoas me acompanharam, com suas sugestões, suas críticas e, sobretudo, seu entusiasmo na realização deste vocabulário. Alfabeticamente, Ariel Yoguel, Bilrbara Steinman,

Gerardo Fittipaldi, Guido Deufemia, Leiser Madanes, Marcelo Boeri, María Luisa Femenías, Oscar Conde, Pablo Pavesi e Yves Roussel. Com María Giannoni e Paula Fleisner, ademais,

discutimos alguns dos verbetes mais complexos. Mariana Sanjurjo teve

a amabilidade de ler sugerir-me as correções necessárias, para que a leitura fosse mais fluida e a expressão mais correta desde o ponto de vista da lingua. É dificil distinglir o que pertence

todo o texto

e

a cada um deles; mas impossível não agradecer-lhes. Nos departamentos de fiiosofia da

Universidade de Buenos Aires, da Universidade Nacional de La Plata e da Universidade Nacional de Rosário, ministrei vários cursos e seminários sobre o pensamento de Michel Foucault. Sem o trabalho de discussão com os que participaram deles, este vocabulário nunca teria vindo à luz. Tambem a todos eles o meu reconhecimento. E por fim, gostaria de agradecer especialmente aos Profs. Walter Omar Kohan e

Al-

tiedo Veiga-Neto pelo interesse que mostraram desde o primeiro momento, em realizar a traduçáo brasileira desta obra. Esse interesse foi acompanhado, ademais, peio trabalho de revisão e de adaptação necessário. Um rnerecido reconhecimento de minha parte vai também para Ingrid Müller Xavier. É impossível expressar em poucas palavras o esforço realizado por ela. Uma parte importante desta obra lhes pertence. 16

TNSTRUÇoES PARA

0

USo

1) Estrutura dos yerbetes. Seguimos um duplo modelo na organização dos verbetes. Todas as "entradas" do vocabulário estão assinaladas em maiúsculas, negritos e caracteres um ponto maior que o resto do verbete. Por exemplo: "EPISTEME". Para os verbetes que abordam um tema extenso e com numerosas relações a outros temas, diferenciamos os contextos indicando-os com termos em negrito, e a letra inicial em maiúscula seguidos de um ponto; por exemplo: "Saber'l Algumas vezes, tivemos que introduzir distinções dentro de cada contexto. Nesse caso, utilizamos, além de negrito e a letra e parênteses. Por exemplo:

"l)

Discurso'l

inicial em maiúscula, números distinguir três níveis em

Desse modo, é possível

um verbete: EPISTEME (título do verbete), Saber (contexto), f ) Discurso (subcontexto). Ademais, quando é necessário dar conta das relações entre os diferentes contextos, o verbete começa com uma breve introdução, para indicá-las. Para os outros verbetes, no entanto, onde não era necessário distinguir contextos de uso, simplesmente utilizamos asteriscos (*) para estabelecer algumas divisÕes no texto. Em três verbetes (Clínica, Loucura e Psiquiatria) nâo tivemos outra alternativa a não ser expor de maneira esquemática, mas analítica, o conteúdo de alguns

livros de Foucault.

conceitos É possível distinguir três categorias de verbetes: verbetes que se ocupam de que verbetes priori histórico); A (por Episteme, exemplo, foucaultianos

.rp..ifi.u..rte

abordam temas tratados por Foucault (por exempl o, História, Poder)

e

verbetes que tratam

de autores que aparecem na sua obra.

2) Referências cruzadas. Para formar uma ideia precisa de alguns temas abordados por Foucault, especialmente aqueles de maior relevância, será necessário consultar vários verbetes. Isso é inevitável. Para indicar o percurso a ser seguido, indicamos em itálico o verbete ao qual se remeter,

por exemplo: "Yer: Epistemd'.

3) Índice de ocorrências e "loci". Ao flnal da exposição dos usos e contextos de cada termo do vocabulário, encontram-se as referências acerca de onde aparece esse termo nos textos de Foucault. Ali indicamos: 1) o termo em francês, 2) entre colchetes, [], a quantidade de vezes que aparece, 3) as referências bibliográficas abreviadas da seguinte maneira:

AN AS

Les anormaux

/

Os anormais

lhrchéologie du savoir / A arqueologia do saber 17

DEI

Dits et écrits I / Ditos e escritos

I

*

DE2 Dits et écrits II / Ditos e escritos II * DE3 DiÍs et écrits III / Ditos e escritos III * DE4 Dits et écrits IV / Ditos e escritos IV *

HF HS

Histoire de la folie à lkge classique / História da loucura Lherméneutique du sujet / A hermenêutica do sujeito

HSI Lhistoire

de la sexualité 1. La volonté de savoir / História da sexualidade I. A vontade de saber

HS2 Lhistoire

de la sexualité 2. Ilusage des plaisirs

sexualidade IL

HS3 Lhistoire

de la sexualité 3. Le souci de soi

sexualidade

IIL

/ História da

O uso dos prazeres

/ História da

O cuidado de si

IDS

"Il faut défendre la société" / Em defesa da sociedade

MC

Les mots et les choses

MMPE Maladie mentale

et

/ As palavras

e as coisas

Personnalité / Doença mental

e

MMPS Maladie mentale et psychologie / Doença mental

NC OD PP RR SP

La naissance de la clinique

/

personalidade e

psicologia

O nascimento da clínica

lhrdre du discours / A ordem do discurso Le pouvoir psychiatrique

/

O poder

psitluiátrico

Raymond Roussel/ Raymond Roussel Surveiller et punir

/

Vigiar e punir

* Referências segundo ediçáo francesa de Dlrs a et écrits, que segue uma ordem cronológica e

não temática como a tradução ao português.

Na deflnição do corpus

apartir do qual foi gerada

seguimos os seguintes critérios:

I)a

a

frequência de aparecimento dos termos,

totalidade dos livros, exceto títulos

e

índices; 2) para Dits

et écrits, não incluímos, alem dos índices, a cronologia contida no vol. I; 3) para os cursos do Collêge de France, deixamos de lado os resumos, que já se encontram em Dits et écrits, e a

"Situation des cours'l redigida pelos editores; mas incluímos as notas. Há uma diferença entre os termos no verbete e no índiçe. Em cada verbete, apresentamos os contextos de uso de um termo que consideramos relevante desde o ponto de vista foucaultiano. No índice, de cada verbete, figuram todas as aparições do termo; não só as que nos interessam. As referências remetem às edições francesas dos textos de Foucault. Isso apresenta várias

dificuldades. A primeira delas é que não existe uma única edição francesa dos textos de Foucault, e a numeração das páginas não é a mesma em todas as reedições. Para facilitar

a

localização aproximada das referências nas diferentes edições e em suas correspondentes 1S

traduções, ao final do vocabulário haverão de se encontrar, relacionadas por ordem alfabética: l) para os livros de Foucault publicados antes de sua morte, os capítulos ou as seções correspondentes à numeração das páginas que utilizamos; 2) para os volumes de Dits et écrits,o título do texto (verbete, entrevista, intervenção) utilizado;3) para os cursos no Collêge de France, a data da aula. Ainda que náo deixe de ser um inconveniente, não encontramos una solução melhor. As edições francesas que utilizamos são as seguintes (os anos correspondem à data da edição utilizada): Les anormaux, Paris, Seuil-Gallimard, 1999.

Ihrchéologie du savoir, Paris, Gallimard, 1984. Dits et écrits I, Paris, Gallimard,1994. Dits et écrits II, Paris, Gallimard,1994. Dits et écrits

IlI,

Paris, Gallimard,1994.

Dits et écrits IV, Paris, Gallimard,1994.

Histoire de la folie à lkge classique,Paris, Gallimard, 1999.

t h erméneutique su suj et, Paris, Seuil-Gallimard, Lhistoire de la sexualité

1.

200

I'

La volonté de savoir, Paris, Gallimard, 1986'

Iihistoire de la sexualité 2, Ilusage

des

plaisirs, Paris, Gallimard, 1984.

Ilhistoire de la sexualité 3. Le souci de sol, Paris, Gallimard, 1984' "Il faut défendre la société", Paris, Gallimard-Seuil, 1997' Les mots et les choses, Paris, Gallimard, 1986.

personnalité,Paris, PUF, 1954'

Maladie mentale

et

Maladie mentale

et psychologie, Paris, PUF, 1997'

La naissance de la clinique, Paris, Gallimard, Ihrdre du discours, Paris, Gallimard, Le

1988.

1986.

pouvoir psychiatrique, Paris, Gallimard-Seuil, 2003.

Raymond Roussel, Paris, Gallimard, 1992. Surveiller et punir, Paris, Gallimatd,1987.

I9

1

A

PRIOR HISTORICO (A priori historique)

Foucault utiliza a expressão "a priori histórico" para determinar o objeto da descriçáo arqueológica. Ainda que várias vezes ele tenha assinalado a herança kantiana de seu trabalho filosófico (D84,632,687-688), o adjetivo "histórico" quer marcar as diferenças com respeito ao " a priori" kantiano. O " a priorihistórico I efetivamente, não designa a condição de validade dos juízos, nem busca estabelecer o que torna legítima uma asserçáo, mas sim as condições históricas dos enunciados, suas condições de emergência, a lei de sua coexistência corn outros, sua forma

específica de ser, os princípios segundo os quais se substituem, transformam-se e desaparecem.

'A priori não de verdades que nunca poderiam ser ditas nem realmente dadas na experiência, mas de uma história já dada, porque é a história das coisas efetivamente ditas" (AS, 167). Trata-se

definitivamente da regularidade que torna historicamente possível os enuncíados.O eo

histórico não são do mesmo nível nern da mesma natureza (AS,

também a expressâo" a priorl concreto'l Em Histoire de

a

priorl formal

165-169). * Foucault

utiliza

folie à lhge classique, por exemplo, a iclentificaçáo do soclus com o sujeito de direito constitui o "a priori concreto" da psicopatologia com pretensão científica (HF, 176). * Em um de seus primeiros textos, "La recherche scientifique la

etla psychologie'(em Morêre), Des chercheursfrançais s'ínterrogent. Orientation et organisation du travail scientiJ)que en Franca Toulouse, Privat, Collection "Nouvelle Recherche'l n. 13, 1957,p. 173-201, reeditado em histórico"

(DEl, 155-i58).

corresponde ao atribuído ao"a Apriorihistorique

DEl,

137 -168), encontramos a expressão

"

a

priori

conceitual e

O sentido dessas duas expressões que acabamos de mencionar não

priori histórico'

[17]: AS, 166 167,169,269.

em lhrchéologie du savoir.

DEI,661. DE4,632. MC, t3,15,171,287,329,35s,361.NC,

197.

; ABSOLUTISMO (Absolutisme) Com o termo " ab solutismo", Foucault refere-se principalmente

à forma de organização do poder do rei e da burguesia na França, durante os séculos XVII e XVIII; exercício administrativamente

A

PRIORI HISTÔRICO (A

priorí historique)

2t

centralizado

e pessoal do poder que se adquire hereditariamente. Criação do hospital geral. À fundaçào do Hospital Geral de Paris data de 1656. À primeira vista, tratâ-se de uma reorga-

nização atraves da qual se uniÍicam administrativamente várias instituições já existentes, entre

ls quais se encontram e

a Salpêtriêre e a Bicêtre, que então foram destinadas a receber, alojar alimentar os "pobres de Paris'l tanto os que se apresentavam por si mesmos quanto aqueles

para lá enr-iados pela autoridade judicial. Ao diretor-geral, nomeado por toda a vida, era-lhe conterido o poder de autoridade, direção, administração, comércio, polícia, jurisdição, correção castigo sobre todos os pobres de Paris que se encontrassem dentro ou fora dos edifícios destinados ao hospital. "O Hospital geral é um estranho poder que o rei estabelece entre a polícia e

limites da lei:

terceira ordem da repressão [...]. Em seu funcionamento ou em vinculado a nenhuma ideia médica; é uma instância de ordem, de ordem monárquica e burguesa que se organiza nesta época na França" (HF, 73). Criados por éditos do rei, na organizaçao e no funcionamento dos hospitais gerais, mesclam-se e a iustiça, nos

a

seu propósito, o Hospital geral não está

os privilégios da Igreja quanto à assistência aos pobres e a preocupação burguesa por ordenar o mundo da miséria (assistência, repressão). A nova instituição se estenderá rapidamente por

todo o reino

e chegará a ser, para além da França, um fenômeno europeu. No entanto, na França, constituição da monarquia absoluta e o renascimento católico na época da contrarreforma lhe darão um caráter particular, de cumplicidade e concorrência entre o poder e a Igreja (HF,

a

77).Yer: Loucura. Direito de castigar. Até o século XVIII, o suplício como castigo não funcionava de modo a ser uma reparação moral, mas como cerimônia política. O delito era considerado uma ofensa e um desafio à soberania do rei, ao corpo do rei. O carâter aterrador e excessivo do suplício, como o de Damiens que Foucault descreye no começo de Surveiller et punir, tinha como finalidade reconstruir a soberania desafiada. Um espetáculo que, em seu excesso, queria mostrar a supremacia do monarca e que, enquanto espetáculo, buscava

(D82, 726).lJmavtneança tanto pessoal quanto pública. Nesse sentido, o direito de castigar que o monarca detém pode ser considerado como uma prolongação do 'direito da espada'l direito de vida e de morte inerente à soberania (SP, 52). Polícia. Entre as seu reconhecimento

transformações das práticas disciplinares durante a época clássica, Foucault assinala a estatização dos mecanismos disciplinares. Enquanto na Inglaterra,

por essa mesma época, grupos privados de inspiração religiosa asseguravam o controle social, na França, a função disciplinar era geralmente assumida pela polícia. Contudo, apesar de que a organizaçáo centralizada do aparato policial possa ser vista como uma expressão do absolutismo monárquico, isto é, de que constitua um aparato de Estado, a função de polícia é coextensiva ao corpo social, ela deve chegar até seus limites extremos, até os mínimos detalhes. Nesse sentido, o objeto da polícia não é o Estado ou o reino como corpo visível do monarca, mas "tudo o que acontece'] "as coisas de cada instante" (sP, 213-215). saber governamental. o século XIX marca o

fim do absolutismo e, com ele, de sua forma de exercício do poder. o poder começa a ser exercido com a intervenção de certo saber governamental que engloba o conhecimento dos processos econômicos, sociais e demográficos. Durante a primeira metade do século XIX, esse saber governamental se estruturou em torno do conhecimento da economia; mas os efeitos da reorganizaçáo da economia sobre a vida dos indivíduos tornarão necessário outro tipo de fim de corrigir esses efeitos, adaptando os indivíduos às novas formas do desenvol-

saberes, a

vimento econômico (a medicina, 22

ABSOLUTISMO (Absoluti sme)

a

psiquiatria,

a

psicologia). O poder político adquire desse

modo uma forma terapêutica (D82, 433-434). Lettres de cachet. Ainda que a utilização das lettres de cachet (umacarta do rei, com seu selo, contendo uma ordem de prisão) tenha sido um episódio temporalmente circunscrito, apenas pouco mais que um século, não por isso resulta insignificante desde o ponto de vista da história do poder. Na opinião de Foucault, essa prática não deve ser vista como a irrupção da arbitrariedade do poder real na cotidianidade da vida. Antes, articula-se, segundo circuitos complexos e um jogo combinado de solicitações e respostas. Todos

podiam servir-se delas segundo seus interesses. Podem ser vistas, por isso,

como uma forma de distribuição da soberania absoluta (D83,247). Discurso histórico. Podemos considerar "Il faut défendre la société" como uma genealogia do discurso histórico moderno. Foucault opõe o que denomina a história jupiteriana ao discurso da guerra de

raças. Aprimeira, tal como a praticavam os romanos e também

a

Idade Média, era concebida

como um ritual de fortalecimento da soberania. Por um lado, narrando a história dos reis, dos potentes e de suas vitórias, liga juridicamente os homens ao poder pela continuidade da lei; por

outro lado, narrando exemplos e proezas, fascina e atrai. Dupla função da história jupiteriana, relato do direito do poder e intensificação de sua glória. Discurso do Estado sobre o Estado, do poder sobre o poder. Em relação à história jupiteriana, o discurso da guerra de raças pode ser visto como uma contra-história; ela rompe a unidade da soberania e, sobretudo, obscurece

sua glória. A história dos soberanos já não incluirá a história dos súditos, a história de uns não é a história dos outros. Os relatos de proezas e façanhas não são senão a transformação,

por parte dos vencedores, das lutas de dominação, de conquista, de opressão. Aparece, então, um noyo sujeito da história: a nação, a raça (IDS, 57-63). Essa nova forma da história foi utilizada tanto pelos defensores do absolutismo quanto por seus opositores. Por exemplo, na Inglaterra, por James I e os parlamentares que se lhe opunham (IDS' 88-89). O discurso da guerra de raças teve como objetivo, na França com H. de Boulainvilliers e como parte da reação nobiliária, desestruturar o discurso que ligava a administração ao absolutismo, isto é, de outro modo' o discurso jurídico e o discurso econômico-administrativo. Para expressá-lo

discurso que a nobreza tratou de desconectar a vontade absoluta do soberano guerra de raças e a absoluta docilidade da administração. Como na Inglaterra, o discurso da foi utilizado por todas as posiçoes políticas, de direita ou de esquerda. O absolutismo, por sua é através desse

vez, também se apropriou dele (IDS, 101-120). 119Absolutisme [46]:DE2,433,465,726.D83,247,323. HF,74. IDS, 87'89,92-94,103, 105-106' 108, 113-114, 120, 125, 127, 128- 130, 136, 157, 180- 183, 207. sP, 82, 2 14.

3. ABSTI N ÊNCIA

(Ábstrnence)

Seria fácil mostrar, segundo Foucault, que a história da sexualidade não pode ser dividida em uma etapa de permissáo e outra de restrições que corresponderiam, respectivamente, ao paganismo e ao cristianismo. O primeiro grande livro cristão dedicado à prática sexual (cap.

X, livro II do Pedagogo, de Clemente de Alexandria) se apoia tanto na Escritura como em preceitos e disposições tomados diretamente da filosofia antiga. Tanto no paganismo como no cristianismo (ainda que, como o próprio Foucault ressalta, trata-se de categorias pouco ABSTTNÊNclA (Abstí nence\

23

precisas), a problematizaçáo do prazer sexual e, consequentemente, a abstinência foram uma parte fundamental da ascese do indivíduo, ainda que com um valor e uma situação diferentes. * A Antiguidade clássica honrou as figuras dos heróis virtuosos, como Apolônio de Tiano,

quem, tendo feito voto de castidade, passou sua vida sem manter relações sexuais. Porém, para além desse caso extremo, como ascese, ou seja, como exercício do indivíduo sobre si mesmo, aparece vinculada a dois temas importantes, o domínio sobre si mesmo e o conheci-

mento de si, isto é, ao governo e à verdade. Aqui encontramos, respectivamente, Agesilao de Xenofonte

eo

Sócrates de Platão (HS2, 20-31). * Nos epicuristas, o exercício da abstinência

servia para marcar o limite a partir do qual a privação se convertia em sofrimento; para os estoicos, por sua vez, consistia em uma preparaçáo para eventuais privaçoes (HS3, 75). -

No marco geral da evolução da ascese antiga, a relação entre abstinência e conhecimento tende a ocupar o primeiro lugar, acima da relação entre ascese e governo. Abstinence [48]: 20-21, 27,

d.

l0l,

DE

135-1 36, 187.

,

362-363,547,552,671,80 L HF,

HS3, 7 5, 77, 85, t44-

6I

9. HS, 279, 395, 3gg, 403, 40s-412, 414, 4rg,435. HS2,

116. 272.

ACONTECIM ENTO (Even em ent)

Foucault se serve do conceito de acontecimento para caracterizar histórica da arqueologia é

e

a

modalidade de análise

também sua concepção geral da atividade filosóflca. A arqueologia

uma descrição dos acontecimentos discursivos. A tarefa da filosofia consiste em diagnosticar

lhrdre du discours, trata-se de una categoria paradoxal, que coloca problemas "temíyeis" e que loi "raramente levada em corlsideração pelos fllósofos" (oD, 59). Em um primeiro momento, podem-se distinguir dois o que acontece, a atualidade. Como ele mesmo observa, em

sentidos desse termo: o acontecimento como novidade ou diferença e o acontecimento como

prática histórica. No primeiro sentido, Foucault fala de "acontecimento arqueológico"; no segundo, por exemplo, de "acontecimento discursivo'i O primeiro quer dar conta da novidade histórica; o segundo, da regularidade histórica das práticas (objeto da descrição arqueológica). Existe claramente uma relação entre esses dois sentidos: as novidades instauram novas formas de regularidade. Assim, por exemplo, em Les mots

et les choses,o "acontecimento" da passagem de uma episteme a outra instaura novos acontecimentos discursivos. É necessário aclarar que, acerca dessa relação entre novidade e regularidade, entre surgimento e funcionamento das práticas, tarnbérn se pode

distinguir duas posições de Foucault. Em les mots et les choses, por um lado, o acontecimento arqueológico e pensado, como veremos em seguida, como uma ruptura radical, só manif'esta por seus efeitos. A regularidade que essa ruptura instaura, por outro lado,

e pensada,

aqui, em termos somente discursivos (ver: Episteme). A medida que Foucault estenda o domínio de análise ao não discursivo (dispositivos, práticas em geral), o surgimento de outras práticas (acontecimentos no segundo sentido que distinguimos, ainda que já não só discursivos) deixará de ser pensado em termos de ruptura radical, de um acontecimento em certo sentido oculto. Com efeito, já não se trata tanto de afirmar o "aparecimento" de outras práticas, porém, mais propriamente, de analisar sua formação. Assim, em Les

mots et les choses, a biologia, por exemplo, em sua regularidade, não é uma transformação 24

ACONTECI MENT O (Événeme

nt\

da

História Natural, mas surge ali onde não havia um

saber sobre a vida. Contudo, mais

tarde, quando Foucault encara a história da sexualidade, a'genealogia do homem de desejo' é pensada como a história das sucessivas transformações de práticas que, desde a Antiguidade, chegaram até nós. Nessa perspectiva, há certa primazia do acontecimento como regularidade. A novidade já náo é um acontecimento oculto do qual as práticas seriam as manifestações; as práticas definem agora o campo das transformações, da novidade. Pois bem, tocamos

aqui em um ponto nevrálgico do pensamento de Foucault: como pensar a relação entre novidade e regularidade sem fazer danovidade uma espécie de "abertura' ("a la Heidegger") nem converter as práticas em uma espécie de "a priori" da história, do acontecimento como novidade? Como pensar, ao mesmo tempo, a transformação e a descontinuidade? Por isso, Foucault deve encontrar um

equilíbrio entre o acontecimento como novidade e o acontecimento como

regularidade que não seja uma recaída nos velhos conceitos da "tradição'nem no novo conceito de "estruturai Ou seja, sem reintroduzir nenhuma instância de ordem transcendental. Trata-se, enfim, de pensar essa relaçáo assumindo a descontinuidade dessas regularidades, o acaso de suas transformaçoes, a materialidade de suas condições de existência

(OD,61). Para

isso, Foucault haverá de se servir dos conceitos de "luta'l "táticas'l "estratégias'l O termo "acon-

tecimento" adquire, então, um terceiro sentido: o acontecimento como relação de forças (em que se percebe a presença de Nietzsche). 'As forças que estão em jogo na história não obedecem nem a um destino nem a uma mecânica, mas antes, ao acaso da luta' (DE2, 148). As lutas, na história, levam-se a cabo através das práticas de que se dispoe, mas, nesse uso, elas se transformam para inserirem-se em novas táticas e estratégias da luta. Aqui, Foucault náo só se serve do conceito de luta, mas também atribui um sentido ao conceito de liberdade.

Todavia não como oposto à causalidade histórica, mas como experiência do limite (Yer: Liberdade,IuÍa). Nesse terceiro sentido, o conceito de acontecimento se entrelaça com o conceito de atualidade (Yer: Diagnosticar)."Dito de outra maneira, nós estamos atravessados por processos, movimentos, de forças; nós não os conhecemos, e o papel do filósofo é ser, sem àúuidu, o diagnosticador destas forças, de diagnosticar a realidade" (D83, 573). A partir daqui, aparece um quarto sentido do termo "acontecimento'] aquele que se encontranoverbo"évé-

nementialiser'l "acontecimentalizar'l como método de trabalho histórico. Resumindo, podemos distinguir, no total, quatro sentidos do termo "acontecimento": ruptura histórica, regularidade histórica, atualidade, trabalho de acontecimentalizaçao. Acontecimento

arqueológico. A mutação de uma episteme

a

outra

é

pensada como o acontecimento radical

que estabelece uma nova ordem do saber; desse acontecimento só é possível seguir os signos, os efeitos (o surgimento do homem como acontecimento epistêmico, por exemplo). Por isso, a arqueologia deve percorrer o acontecimento em sua disposição manifesta

(MC,229-230).

O acontecimento que produz a mutação de uma episteme é pensado em termos de abertura (MC,232).Nesse sentido, pode-se falar de acontecimento arqueológico (MC,307,318). Ver:

Episteme. Acontecimento discursivo. A arqueologia descreve os enunciados como acontecimentos (AS, 40). Foucault opõe a análise discursiva em termos de acontecimento às análises que descrevem o discursivo desde o ponto de vista da língua ou do sentido, da estrutura ou do sujeito. A descrição em termos de acontecimento, em lugar das condições gramaticais ou das condições de significação, leva em consideração as condições de existência que determinam a materialidade própria do enunciado (AS, 40, 137-138). Ocupamo-nos delas ACONTECIMENT O (Événe men t\

25

e Formaçao discursiva. História, série. A noção de acontecimencriação (OD, 56).'As noções fundamentais que se impõem agora [na descrição arqueológical não são mais aquelas da consciência e da continuidade (com os problemas que thes são correlatos, da liberdade e da causalidade), não são tampouco aquelas do

nos verbetes:

to

Enunciado

se opõe à noção de

signo e da estrutura; sáo o acontecimento e a série, com o jogo de noções que thes estão ligadas: regularidade, aleatoriedade, descontinuidade, dependência, transformação" (OD, 58-59). Discursivo - não discursivo. "Porém se se isola a instância do acontecimento enunciativo, com respeito à língua ou ao pensamento, não é para tratá-la, a ela mesma, como se fosse independente, solitária, soberana. Ao contrário, é para captar como tais enunciados, enquanto acontecimentos e em sua especif,cidade tão estranha, podem articular-se com acontecimentos que não são de natureza discursiva, mas que podem ser de ordem técnica, prática, econômica, social, política , eÍc.Fazer aparecer em sua pureza o espaço onde se dispersam os acontecimentos discursivos não é tentar estabelecê-lo como uma ruptura que nada poderia superar, não é

encerrá-lo nele mesmo, nem, com ainda mais razão, abri-lo a uma transcendência; ao contrário, é tomar a liberdade de descrever entre ele e os outros sistemas, exteriores com respeito a e1e, um jogo de relações. Essas relações devem estabelecer-se no campo dos acontecimentos, sem passar pela forma geral da língua nem pela consciência singular dos sujeitos falantes"

(DEr,707). História efetiva (wirkliche Historie). A história efetiva, como

a entende

Nietzsche, faz ressurgir o acontecimento (as relações de força) no que ele pode ter de único e agudo. Desse modo, opõe-se à história tradicional que o dissolve no movimento teleológico ou no encadeamento natural (DE2, 148). Deleuze. Foucault, em sua resenha de Logique du sel,s, ocupa-se da noção de acontecimento na obra de Deleuze.

Yer Deleuze. "Acontecimen-

talizaçíd' ("Evénementialisation"). Com esse neologismo, Foucault faz referência a uma forma de proceder na análise histórica que se caracteriza, emprimeiro lugar, por uma ruptura: fazer surgir a singularidade ali onde se está tentado fazer referência a uma constante histórica, a um caráter antropológico ou a uma evidência que se impõe mais ou menos a todos. Mostrar, por exemplo, que não há que tomar como evidente que os loucos sejam reconhecidos como doentes mentais. Em segundo lugar, caracteriza-se também por encontrar as conexões, os encontros, os apoios, os bloqueios, os jogos de força, as estratégias que permitiram formar, em um momento dado, o que depois se apresentará como evidente. Segundo Foucault, isso

implica uma multiplicação causal: 1) analisar os acontecimentos segundo os processos múltiplos que os constituem (por exemplo, no caso do presídio, os processos de penalização da clausura, a constituição de espaços pedagógicos fechados, o funcionamento da recompensa e da punição); 2) analisar o acontecimento como um polígono de inteligibilidade, sem que se possa definir de antemão o número de lados; 3) um polimorfismo crescente dos elementos que entram em relação, das relações descritas, dos domínios de referência (D84,24-25)."Há

já bastante tempo, os historiadores náo amam muito os acontecimentos e fazem da 'desacontecimentalizaçao'o princípio de inteligibilidade histórica. E o fazem referindo o objeto de sua análise a um mecanismo ou a uma estrutura, que deve ser o mais unitária possível, o mais necessária, o mais inevitável possível, enfim, o mais exterior possível à história. Um mecanismo econômico, uma estrutura antropológica, um processo demográfico como ponto culminante da análise. Eis aqui a história desacontecimentalizada. (Certamente, só indico e de maneira grosseira uma tendência.) É evidente que, com respeito

26

AcoNTEctMENTo (Évenement)

a esse

eixo de

análise, no que eu proponho, há demasiado e demasiado pouco. Demasiadas relações diferentes, derr-rasiadas linhas de análise. E, ao mesmo tempo, pouca necessidade unitária. Pletora do lado das inteligibilidades. Déficit do lado da necessidade. Porém, isso é para mim a aposta comum da análise histórica e da crítica política. Náo estamos e não tenros que nos situar sob o signo da necessidade única" (D84,25). Revolução, Iluminismo. A propósito da célebre resposta de Kant à questão "O que é o iluminismo?'l encontramos outro sentido do termo "acontecimento" nos textos de Foucault. Esse tem a ver com o que Kant

considera um signo "rememoratívurn, demonstrativunt, pronosticum", ou seja, um signo que mostre que as coisas sempre foram assim, acontecem tanbént atualmente assim e acontecerão sempre assim. Um signo com essas características é o que permite determinar se existe ou não um progresso na história da humanidade. Para Kant, o acontecimento da Revolução Francesa reúne essas condições. O que constitui o valor de acontecimento (de signo rememorativo, demonstrativo e prognóstico) não é a Revolução mesma, nem seu êxito ou seu fracasso, mas o entusiasrno pela revolução que, segundo Kant, põe de manifesto uma disposição moral da humanidade (D84, 684-685). Foucault estende essas considerações acerca da Revolução ao Iluminismo em geral, como acontecimento que inaugura a

Modernidade europeia. "O que e o iluminismo?" e'b que e a revolução?" são as duas questões que definem a interrogação filosófica kantiana acerca da atualidade. Se, com as Críticas, Kant fundou uma das linhas fundamentais da filosofia moderna, a analítica da verdade que pergunta pelas condições do conhecimento verdadeiro, com essas duas perguntas, Kant

se

inaugurou se

a outra grande tradição, a ontologia do presente, uma ontologia do presente que pergunta pela signif,caçâo filosófica da atualidade (DE4,686-637). "Não são os restos da

Auftkirung

que se deve preservar, é a questão mesma desse acontecimento e de seu senti-

do histórico (a questão da historicidade do pensamento universal) que é necessário ter presente e conservar no espirito como o que deve ser pensado" (D84, 687). Por isso, poderse-ia considerar como uma filosofia do acontecimento nâo só a arqueologia dos discursos, mas também a ontologia do presente, na qual o próprio Foucault se situa, isto é, a genealogia e a ética. Governo, Verdade. "Para dizer as coisas claramente. Meu problema é saber como os homens se governam (a si mesmos e aos outros) através da produção de verdade (repito-o uma vez mâis, por produção da verdade não entendo a produçáo de enunciados verdadeiros, mas o ajuste de domínios onde a prática do verdadeiro e do falso pode ser, ao mesmo tempo, regrada e pertinente). Acontecimentalizar (événementialiser) os conjuntos singulares de práticas, para fazê-Ios aparecer como regimes diferentes de

jurisdição

e

veridicidade, eis

aqui, em termos extremamente bárbaros, o que eu queria fazer. Vocês veem que não é nern uma história dos conhecimentos, nem uma análise da racionalidade crescente que domina nossa sociedade, nem uma antropologia das codificações que regem nosso comportamento sem que o saibamos. Eu queria, definitivamente, ressituar o regime de produçâo do verdadeiro e do falso no coração da análise histórica e da crítica política" (D8 4, 27). Éverrenent[593]:4S,36-37,40-41,44,83,133 134,137,140,143,159,\62-163,169,170,185,187,215,218,224,230-23t, 246.

DEl,85,

155,

i74 t76, t9t-]192, 199,202-203,2t3-2r4,235,248,258,265,277,284,286,352.

520,598,607,673,675,704

-170,

38r,424,430,456, 504,51 t,

707,768,770,793,796,798.D82,77,81-89,92,94,t48,226,237-238,213,273,275-278,283,292,295,

393,400,407,466,484, s03, ss l, s94-s9s,607,633,6s8,677,693-697,712,7t3-7ts,751.D83,10, 48, 80-82, 98-100. 1 16, 144- 145, 162,190,244,279-280, 302, 314, 385, ,t17,467 -468,480,481,524, s38,551,573 574,579,581,600,604,622,627,676,686,7]f',726,

ACONIECIMENTO (Évé ne me nt\

27

,- 15.746,783,788-789,807.Dr/.,23-24,37,76,80,112-113, r33,179,231,249,360,382,390,424,441,454,463,467,468-469,47t1;2,474,479,483,490-492,494,497,503,522,562-564,571 572,577,615,680-684,686-687,697,800-801, 803, 815. HF '9' 10'70, l, 604, 659. HS, 1 1, 23, 84, 128, 174' 175' 177 05, 108, 133, 2 10, 226,238,243,261,279 281,368,371,409,455,505,553,562,580-58

'

1

)vn,)03,212,214,244,255,286,301,308-3

t,

3

12, 346,

430,450-452,454,457 -458.

HSl,

86, 88.

HS2,

149.

HS3, 17,22,23,24,25,

-19, 32, 39, 44, 83, r23,225.1D5,7,20, 88, 141, 144,221. MC,95,141,166,229,230,232,249-251,255,259,261-262,264,274,

r9l-291. 30;,

i0, r33,

109,

1

RR,

1.1, 53,

3

18, 328, 333, 340, 3s6, 362, 382, 388, 398.

139, 147, 155, 157.

OD,

1

1,

MMPE,

17, 29.

MMPS,

27, 29, 88, 94.

NC, xI, XV 24,

28, 61,

85'97,104'

23, 28, 53, 56-60. PP, 12,35,49,222-233,237-241,245-246,248,256,262,292'318-320.

69, 72, 76, 109, 120. SP, 18,4s, 143, 190,218.

Événementialisation l8l: DEA

5,

10,

23, 25 -26, 30.

ÃMULATIO Uma das flguras da semelhança.Yer: Episteme renascentista. Aemulatio

[6 ] : DEl, 482, 484, 489;

MC,

3

4, 3 6, 40.

*. AFEM I NADO (Effem i n e)

Na Antiguidade, a linha de separação entre um homem

viril

e

um afeminado não coincide

com nossa oposição entre hétero e homossexualidade; tampouco se reduz à oposição entre e passiva. Marca, antes, uma diferença de atitude em relação aos pra-

homossexualidade ativa

zeres. Os signos do afeminado serão: a preguiça, a indolência, a recusa às atividades pesadas, o

gosto pelos perfumes, os adornos. "O que constitui, aos olhos dos gregos, a negatividade ética

por excelência não é evidentemente amar os dois sexos, tampouco preferir o próprio sexo ao outro, é ser passivo com respeito aos prazeres" (HS2, 99). Efféminé [ 9 ] : DE4,

3

1

3, s48. HS, 327 .

}lS2, 2r,

98-

99, 22

l. HS3, 22t, 233.

r. AGOSTINHO, Santo (3s4-430)

As referências de Foucault às obras de S. Agostinho articulam-se principalmente em

torno à ideia de carne e ao célebre livro XIV da Cidade de Deus. Agostinho nos oferece ali uma descrição do ato sexual como uma espécie de espasmo: o desejo apodera-se de todo o homem, sacode-o, sobressalta-o, mescla as paixoes da alma com os apetites carnais... Trata-se de uma transcrição da descrição já presente no Hortensio, de Cícero. Pois bem, Agostinho admite a possibilidade da existência de relações sexuais no Paraíso, ou seja, antes da queda, mas, aqui, não teria essa forma quase epiléptica. Sua forma atual, definida pelo caráter involuntário e excessivo do desejo, é uma consequência da queda

original,

do pecado

original. Segundo Agostinho,

esse

teria consistido na desobediên-

cia da vontade humana com respeito à vontade divina. O efeito dessa desobediência foi a desobediência interna do homem. Santo Agostinho denomina "libido" o princípio do 28

EMULATIO

movimento autônomo, desobediente, dos órgãos sexuais; desse modo, sua força, sua origem e seus efeitos se convertem no principal problema da vontade. O conceito de carne faz referência ao corpo conquistado pela libido. Posto que esse desejo, certamente não em sua dinâmica atual, provém de Deus, à diferença de Platão, nossa luta espiritual não consistirá em dirigir nosso olhar para o alto, mas para dentro, para baixo, a fim de decifrar os movimentos da alma (D84,174-177). Saint Augustin [47]:DFL,295. DE3,555. DE4,174-177,300,308, 389,394,563,614,619,793,805. HS,28,

180,

184, 315, 44i. HS2, 49, 155, 27 8, 280. HS3, 168.

S.

ALCIBIADES

Alcibiades I, o diálogo que a Antiguidade não tem dúvidas quanto

O é

a

atribuí-lo

a Platão,

considerado por Foucault como o ponto de partida da tradição da epiméleia heautoú, do

cuidado de si mesmo, a primeira grande emergência teórica do cuidado (HS, 46). Nele, a questão do cuidado de si mesmo aparece em relação com outras três: a política, a pedagogia e o conhecimento de si (DE4,213-218,355, 789). O curso no Collàge de France dos anos 19811982,

L'herméneutique du sujet, está amplamente dedicado

ao

Alcibiades. Após anaiisar esse

diálogo (HS, p. 27-77), Foucault se ocupa da evolução do tema do cuidado de si mesmo até o helenismo.

Yer Cuidado.

Alcibiade [339]: AN,

25;

DEl,

414; DE4. 177,213,329, -355'357, 385, 390, 398, 407, 552,615,

71

3, 721,786,789-

792,795-796_I{S, 10,27 ,32-43,45-46, 49-50, 52-54,57 -58,62-67 ,69-7 \,73,7s-77 ,79-81 ,84, 86, 88, 90

9

r, 93, l 04, 108,

I 14. 123, 156, 163-169,179-180,182, 191, 197-198,212,215,237,244,256,330-331,395,397,400-401,414,421,42e-430,

435-437,438,441, 454. HS2, 27,53,81,85, 102, 208, 264-265,283. HS3, 58-59, 251,259' 278.

*. ALIENAç AO (Al ienation)

No verbete Loucura, ocupamo-nos largamente do conceito de alienação em Foucault. Em linhas gerais, Foucault passa de uma concepção, na qual se combinam

histórico, sociológico

e

e se

confundern os registros

psicológico, para uma concepção mais complexa, mas mais estrllturada,

com base nas práticas de saber

e

poder. Desse modo, em Maladie mentale et personalité, aalie-

nação aparece como um produto das alienaçôes históricas da sociedade. No entanÍo, em

Histoire

de lafolie, a alienação mental é produto das práticas que alienam não o espírito, a mente, mas

a

pessoa, a liberdade daqueles que sáo reconhecidos como doentes mentais. Nesse sentido, a raiz da doença mental não é a alienação, mas a discriminação histórica entre o normal e o patológico

que constrói as formas de alienação: "Náo há verdade para a psicologia que náo seja, ao mesmo tempo, alienação para o homeni'(HF, 548). Yer; Loucura, Psiquiatria. Aliénation [217]: AN,45,100. 56, 59.

DEl,

93,

125, 128, 130-132, 134, 136, 1,18, 154, 1s6,260.266,271,285-287,291

tt9, 195,232,270, 480, 54 1, 657, 825 .D82,213,359,445,807 ,821,824. DE3,

451, 453, 472, 808. DE4, 52, 62,74, 186,226,500-501, 5l 7, 594, 665.

HF, I l2-

1I

1

7

292,301. AS,

I, 308, 337, 445 446, 448,

3, I 15- l 16, 139, l4l,145, 147, 152, 158,

166.168,171 178,r82,184 185,211,269,281,297,307.333,380,44]1,4O.,165,171-474,486

488.490491,494,539,5,]J.

ALIENAçÂO (Alienation)

29

5+, r18,55+,559,564,566,570,575,579,584,588,590-591,595-597,599-600,606,610,612-614,623,626,631,651 654. IDS, i6. IÍC, 273,27s,325,388. MMPE, 16,76,77,80 83, r02-108. MMPS, 15,89. NC,40. PP, 18,31,37-38, 100-101, 109-110,rr8-119k,120-122,139-140,166-168,189,192 193,195,210,212,223-224,254,263265,280,291-295,329.

:=. ALTHUSSER,

Louis (1918

1990)

A diferença de Althusser, Foucault não afirma nenhuma ruptura epistemológica a propósito de Marx (DEl, 587).* Interrogado acerca da categoria de estruturalismo, Foucault separa-se de Althusser afirmando que, enquanto esse busca o sistema em relação com a ideologia, ele, por sua vez, busca-o em relação com o conhecimento (DEl, 653). Há poucas coisas em comum entre os chamados estruturalistas (o próprio Foucault, Althusser, * Lacan, Lévi-strauss) (DEl, 653, 665). Althusser liberou o marxismo de seu componente * humanista (D82,272). Têm em comum (Althusser, Lacan e Foucault) problematizar a filosofia do sujeito (D84,52). Louis Althusser [52J: AS 429, 590, 609. DE4,

11.

5

1

12.

-s3, 65-66,

7

DEr,

5

16, 587, 653, 658, 665, 8 I 3.

DE2, 170,272,406,621,736,772.DF3,33'34,313,

4, s29. PP, 20.

AMICITIA

Uma das figuras da semelhança.Yer Episteme renascentista. Amicitia [3]: DEf ,480. HS,

12.

160.

MC,32.

ANACHÓnrStS

O

Alcibiades 1, atribuído a Platão, é considerado por Foucault como a primeira grande

emergência teórica do cuidado de si mesmo. Esse texto se inscreve, no entanto, em uma velha

tradição de práticas de si mesmo, de exercícios do sujeito sobre si mesmo. Entre essas, encontramos o "retiro ] a anachóresis. O termo " anachóresis" tem dois sentidos na linguagem corrente: a retirada do exército diante do

inimigo e a fuga de um escravo que deixa a chóra (HS, 204);

mas, no contexto das práticas de si mesmo, significa um ausentar-se do mundo no qual alguém se

encontra imerso, interromper o contato com o mundo exterior, não sentir sensações, não

preocupar com o que passa

à nossa

volta, fazer como se não

se

se

visse o que acontece. Uma ausência

visível aos outros (HS, 47). * Reelaborada filosoficamente, a encontramos no Fédon de Platão

(HS, 49). * Marco Aurélio (Pensamentos, IV 3) consagra uma extensa passagem à descrição dessa técnica (HS3, 66; HS, 50). x A escritura de si mesmo aparece nos textos da Antiguidade como uma técnica complementar da anachóresls (DE4, 416). Ver: Hypomnémafa. * A ascese partir do desenvolvimento do cenobitismo, levou a cabo uma forte crítica do que pode haver de individualista na prática do anacoretismo (HS3, 57). cristã, especialmente

30

a

AITHUSSER, Iouis

Anachoràse [5]: DE4, 416. HS, 47, 50. HS3, 57, 66. Anakhôrêsis

I

I 3 ] : DE 4, 362, 7 99. HS, 47, 49-50, 88, 97, 204, 256.

:3. ANALíTICA DA FINITUDE

(Analytique de la finitude)

A analítica da finitude, junto com as Ciências Humanas, define

a

disposição antropológica

da episteme moderna. Yer: Homem. Analytique de la finituile [15]: MC,

323, 326,328-329,349, 350, 362,365,373,384-385,393.

i4 ANALOGlA (Ana|ogie) Figura de semelhança. Yer: Episteme renascentista.

Analogia [1]:D81,489. Analogie [196]: AN,4l, 121,288. AS, 18,68,88, 187, 190. DEl, 188,241,257,282,345,358,363-365,368-369,373, 390,397,407,484-485,488,491,492,494,566,594,63t',644,649,749,752,769-770,807,

375-376,378-379,381-382,388

840,846.D82,39,41,17t,439-440,643.D83,166,169,439,468.D84,64,416,435,47t472,474,484,755,810811. IJF,279,306,348,421,641. If9,93,179,256, 441. HS2, t91.,232,236.H53,27 -29,31-32,45, t32-t33,274. IDS, 1 i, 14, 88. MC, 36, 37 , 40, 42-44, 46, 52-53, 63, ).2t-122, 130, 70, t77 ,2t4, 230, 247 ,284,392. NC, XIII, 5-6, 9 1, 99- 101, 133, 1

135, 144, 1 51, 210. PP,

:

27

6, 284, 294-295, 334. RR, 1 10, r 75. SP, 32, 89, 106, 166.

: ANIMALIDADE

(Animalite)

Os bestiários medievais eram bestiários morais (os animais expressavam simbolicamente os valores da humanidade); durante o Renascimento, no entanto, as relações

Loucura.

entre a animalidade e a humanidade se inverteram (os animais fantásticos representaYam os segredos da natureza do homem). O classicismo, por sua yez, mostrou um pudor extremo ante

inumano (justificando

prática da clausura), exceto a respeito da loucura. No asilo encontramos assim a desrazão que se oculta, e a loucura que se mostra, adquire a f,gura do monstruoso. É, mais precisamente, sua violência o que foi objeto de espetáculo. Ela é encerrada a todo o

a

em razão de sua periculosidade social; no entanto,

é

mostrada pela liberdade animal que ela

manifesta. Com efeito, na sem-razão, essa animalidade não será a manifestação do diabólico, nem das potências infernais; mas da relação imediata do homem com sua animalidade

(HF, 198-199).

Os animais impossíveis, que surgem da imaginação da loucura, revelarão ao homem os segredos de sua natureza (HF, 36-37). * Sem perseguir a finalidade de castigar ou de corrigir, os loucos, cuja violência animal era difícil de dominar, foram objeto de práticas

extremas de sujeiçáo (atados aos muros, às camas, grilhões nas pernas, nos pulsos, pescoço, etc.). Através dessa violência sem medida, a imagem da animalidade atormenta o mundo do asilo. Posteriormente, em uma perspectiva evolucionista, essa animalidade será considerada ANIMALIDAOE (Animalite)

31

como a essência da enfermidade; porém, para a época clássica, ao contrário, é signo de que o louco não está doente. A animalidade, com efeito, protege-o das debilidades que provoca a loucura. Essa animalidade feroz exigia ser domada, domesticada. Através da animalidade, a loucura não encontrará as leis danatureza,mas as mil formas de um bestiário em que o mal já não tem lugar. Entre a experiência da animalidade como manifestação das potências do mal

e

nossa

experiência positiva, evolucionista, situa-se a experiência clássica, uma experiência negativa da

animalidade. Na loucura, com efeito, a relação com a animalidade suprime a natureza humana (HF , 197 -212). * Por volta do final do século XVIII, a tranquilidade do animal constitui uma característica própria da bondade da natureza. Agora, será afastando-se da vida imediata do - isto é, com o surgimento do meio - que surge a possibilidade da loucura. O meio

animal

desempenhará agora o papel que antes desempenhara a animalidade (HF, 465-467). * A lenda do encontro entre Pinel e Couthon conta a história de uma purificação: o louco purificado de sua animalidade violenta e selvagem; cabe-lhe agora uma animalidade dócil, que não responde violentamente à coerção e ao adestramento (HF, 592-593). Biologia. Para o saber da vida do século XIX, a animalidade representa noyos poderes fantásticos. Nela se percebe melhor

o enigma da vida (MC,289-291).

Politicidade.

milênios foi, como para Aristóteles, um animal e, além disso, capaz de uma existência política. O homem moderno, no entanto, é um animal, em cuja vida política sua própria animalidade é objeto de questionamento (HSl, 188). Ver também: Biologia, Biopoder. O homem durante

Animalité [66]: Al{,283.DEt,234.D82,17.H.F,36-37,197-209,212,256,465,467,475,529,543,552,592-594,603,609, 6,10.

HS3, 247. MC,

120,

289 290. RR, 90.

:+ ANOMALIA(Anoma\ie) Alienação. A patologia clássica sustenta que prim